IconeAPELO AO BOCA - Sérgio da Costa Ramos

Transcrevemos abaixo crônica de autoria do Jornalista Sérgio da Costa Ramos publicada em sua coluna do Diário Catarinense do dia 09 de fevereiro de 2006.

"APELO AO BOCA"

Amigo Boca, chefe do Berbigão, te lembras daquele "aviãozinho" que tomaste no quengo durante a aula de inglês do padre Otto? Pois é. Fui eu. Confesso a "arte" 45 anos depois, porque nem desconfiava que um dia fundarias o "Bebo" e, assim como o Oswaldo Sargentelli, ficarias assim tão próximo dessas esculturas de cravo e canela.

Desculpa vai. Se te consola, o padre Otto "pegou o movimento" e me deu voz de "prisão". Tive que voltar aao Colégio terça de tarde, e copiar o início do Sermão da Montanha 100 vezes:

- Vos sois o sal da Terra. Ora, se o sal se corromper, com o que se há de salgar?...

Pago qualquer penitência pra ser premiado "curador de mulatas" do Berbigão, mesmo subvertendo aquela máxima do filósofo Romário - "o cara chega por último no ônibus e já quer sentar na janelinha"? Até mesmo pelo critério da antiguidade sou um "Berbigão" juramentado. Já era fã do nosso molusco desde o tempo do "Bacalhau do Batata", aquele garçom de Olinda que inspirou o Boca a fundar no sul, uma prorrogação do tríduo, logo transformado em "abertura".

O Boca capturou a ideia, mas aperfeiçoou o princípio. Se o negócio era prolongar o Carnaval, por que não começa-lo mais cedo, uma semana antes? 

Falta incorporar ao bloco todo o amor que este escriba devota ao "ziriguidum-pop" do Carnaval ilhéu, de olho, é verdade, naquelas princesas que requebram ostentando o verdadeiro estandarte do Brasil - essa pele morena que nasceu da união do ébano com o marfim...

Boca: não dá pra me arranjares uma "boquinha" para mim aí no BeBo?

Digamos, coordenador de reco reco? Acariciador de chocalho (-epa)? Tocador de pratos ou de clarins?

Roncador de Cuíca? "Segurança" da rainha e das princesas? Tocador de bumbo, "caixa" ou repinique?

Claro, não vou mentir que sou leve como um passista da Mangueira. Ou tão ágil, pela magreza, quanto ao meu amigo Pitanga, na hora de voltear em torno do estandarte sagrado., fiel a minha porta bandeira., fiel a minha porta bandeira. Alias, quem será, quem será? Será tão inesquecível quanto a nossa eterna rainha, a Jaqueline Aranha?

Meu pé anda pesado e posso até não rodopiar como os melhores "mestres",  mas, amigo Boca, não tem até japonês no samba?

Não tem alemão na Marquês de Sapucaí? Não mostraram ainda ontem um robô japonês que requebra e se abaixa como aquela popozuda do "tchan"?

Pois é. Não custa nada dar uma chance aqui para o admirador dessa "ópera móvel", que afina suas notas no Mercado e sai pelas ruas da cidade, derramando a "nona" de Beethoven, transformada em breque, percussão e frigideira, sem falar na grande apoteose que é o desfile das Afrodites café com leite. Afff!

Amigo Boca: se, apesar de tua boa vontade, este teu colega de banco escolar não passar pelo "teste de mocassim", em meu "test-drive" de aspirante a passista, considere ao menos uma possível homenagem a este pobre Mané urbano "diproma" outorgado pelo ninguém menos que o Mané mor, Aldírio Simões, no momento abrilhantando o bloco dos teus bonecos...

 Quem sabe "não me tiras as medidas" para que um dia possa sambar para os teu netos, na forma de um boneco, só menos gordo que o meu amor pelo BeBo?

O único obstáculo para a "implementação" desse desejo é que não tenho a menor intenção de morrer - juntando-me à epopeia boêmia de Luiz Henrique e Bia Rosa, Zininho, Parú (Helinho Langue), Negão Tenente, Nego Tuca, Meyer Filho, Lagartixa, Neide Mariarosa, Beto Stodieck, Djalma do Piston, Miro e Aldírio Simões - Manés recém viajados.

por enquanto deixemos assim: bebo à saúde do BeBo e sigo, olho, rutilo, o bamboleio das mulatas. Vou atrás do Berbigão porque atrás dele só não vai quem já virou boneco... 

Faltam 53 dias para o Berbigão do Boca 2018.